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História da matemática

Hipácia e o fim da tradição matemática grega

A atriz Rachel Weisz como Hipácia no filme Ágora
Fonte: Strange Culture Blog

A atuação da premiada atriz Rachel Weisz como Hipácia de Alexandria (c. 351/370 — 415) no filme Ágora foi mais do que memorável. Ela conseguiu captar a genialidade e a vivacidade daquela que é considerada a primeira cientista da história ocidental e, ao mesmo tempo, a última diretora da magnífica Biblioteca de Alexandria.

A imagem acima mostra Hipácia segurando rolos de pergaminhos, vários dos quais ela mesma escreveu. Versada em astronomia e matemática, assim como em filosofia, poesia e artes, Hipácia era filha de Téon de Alexandria (335 — 395), outro renomado matemático e astrônomo da época. Hipácia em muito superou o pai, tendo escrito tratados sobre Diofanto, Ptolomeu e Euclides. Assumiu também a direção, com apenas 30 anos, da lendária Biblioteca de Alexandria, o grande centro da cultura e da ciência helenísticas.

Conta-se que Hipácia era exímia nas técnicas de resolução de problemas de matemática, habilidade que empregou no aperfeiçoamento do hidrômetro e na criação do astrolábio plano. Escreveu muito, mas nenhuma de suas obras sobreviveu. É provável, no entanto, que seus livros tenham sido assinados por cientistas homens, uma vez que a situação de subalternidade imposta às mulheres tem raízes profundas e remotas. E embora a educação universitária moderna seja composta majoritariamente por mulheres, ainda hoje poucas obtêm reconhecimento nas ciências exatas.

Um drama frequentemente relatado sobre a vida de Hipácia é sua morte dramática. Mulher não cristã com posição de destaque na sociedade alexandrina de seu tempo, Hipácia entrou em conflito com o fanatismo religioso e anticientífico de Cirilo (375/378 — 444), o patriarca da cidade, preocupado com o expurgo de doutrinas e ideias que afrontavam os dogmas da cristandade. Cirilo espalhou boatos de que Hipácia fazia sacrifícios humanos, fermentando o furor da população cristã. Em uma tarde de março de 415, ela foi arrastada por uma turba de cristãos até uma igreja e lá dentro torturada cruelmente, tendo seu corpo lançado às chamas logo depois. A Biblioteca de Alexandria, assim, seria fechada, tendo perdido sua última e mais brilhante diretora.

A morte de Hipácia marca tanto o fim do período helenístico nas ciências quanto o início da Idade Média, ainda que a filosofia grega continuasse a ser cultivada em escolas esparsas pela Europa e pelo norte da África. Mais de um milênio se passaria até que uma outra mulher voltasse a figurar na lista de grandes cientistas ocidentais.

Pouco mais de um século depois da morte de Hipácia, o pêndulo científico se voltaria para uma civilização de ideias mais arejadas que se formava bem ali perto, uma que viria a conquistar toda a região: a civilização árabe.

Discussão

  1. Por que você imagina que existam tão poucas mulheres de destaque nas ciências exatas?
  2. Em Alexandria e em sua Biblioteca floresceram dezenas de gerações de cientistas por mais de sete séculos. Seria o subdesenvolvimento crônico do povo brasileiro apenas uma consequência da falta de bibliotecas nas maioria de nossas cidades?
  3. O que você pensa do multimilenar conflito entre ciência e religião? Sabemos que ciência e religião não estão necessariamente em conflito, mas que existem, de fato, afirmações em diversos livros sagrados que contradizem frontalmente os mais elementares conhecimentos científicos. O que você pensa que deve ser feito nessas horas?

Para saber mais

Procure saber um pouco mais sobre

  • astrolábio plano
  • mulheres na matemática
  • sexismo científico

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