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  • 27

    Escravidão na Grécia: por que os escravos nunca fugiam?

    Lendo a Odisseia, no canto 24, leio os versos 208-210, na versão de Christina Werner, editora Ubu:

    Aí era sua propriedade; abrigo corria por todo o entorno,

    no qual costumavam comer, sentar-se e dormir

    os escravos, obrigados, que faziam o que ele quisesse.

    Homero descreve a visão que Odisseu teve da casa de seu pai, Laertes, quando desceu da sua para avisá-lo que havia voltado. Os escravos dessa passagem era os escravos de Laertes.

    Por que os escravos gregos se sentiam obrigados a ficar? Muito numerosos, facilmente poderiam ter fugido ou se rebelado, matando seus senhores. Mas esse padrão de obediência era conseguido, obviamente, a custa de muita violência, medo da morte, castigos exemplares e impossibilidade de acesso a armas em número suficiente. Imagino que alguns tenham conseguido fugir, a um custo pessoal muito alto.

    Um aspecto da dominação é a percepção de que o dominado faz parte de um conjunto dividido internamente. Não há consenso, não há vitalidade, não há fervor ou vontade de escapar. Essa divisão é facilmente percebida em qualquer grupo social, facilmente explorada e mantida. Dividir para conquistar.

    Um outro aspecto da dominação era que o dominado precisava ser conformado com sua prisão. Nessa hora, entra a religião, que opera com as armas da esperança e do medo em um mundo inacessível em vida. A criação desse mundo duplicado, já denunciado desde a antiguidade e retomada por Marx, é a principal estratégia de dominação moral que senhores criam para submeter servos.

    Religião para a mente e exército para o corpo: o que um não consegue violentar, o outro consegue.

  • 26

    Política – atividade do governo, gerencial.

    Política – atividade de alguns profissionais, os políticos.

    Política – atividade de grupos sociais que se dirigem aos profissionais e ao governo, em manifestações e reivinidcações diversas.

    Mas política é poder. E por que o poder deveria ser centralizado ou distribuído nas mãos de alguns poucos? Essa é a naturalização mais descarada da dominação social que temos. De tão distante e abstrata, não serve nem como exemplo de dominação, mas de organização, e uma organização “natural”, sem ideologia.

    Um dos princípios do anarquismo é reconhecer essa desnaturalidade, essa dominação que, como a da religião, justifica-se por ser antiga e naturalizada.

    Escolas, currículos, métodos, conteúdos: nada é natural. Por que eu deveria aceitá-los sem questionamento?

  • 25

    Existe alguma esperança de emancipação da raça humana?

    A pergunta me surgiu depois que li o índice de um livro (não sei se do Zizek), em que o autor faz uma pergunta parecida. É uma ótima provocação, uma que me empurrou ainda mais para o fim da linha, para um nihilismo que me deixa estarrecido, mas que me parece ser o limite dos meus pensamentos.

    Emancipar-se não tem, de fato, uma definição precisa. É mais um termo vago, parte de algum slogan de esquerda, uma vez que a direita não é capaz de pensar para além da obediência a seus mitos religiosos, políticos, sociais. Mas não estariam eles no verdadeiro caminho, o da servidão a algo imputado como maior e mais importante do que eles mesmos?

    O problema da emancipação é o de ser mais um Spuk, no dizer de Stirner, que nos aprisiona. Mais um fantasma, mais um espectro, mais um sink hole no qual a esqueda afunda, girando sua cabeça para todo lado antes de afogar. A morte é a melhor coisa que a esquerda pode desejar, morte que liberta da sofreguidão da esperança.

    Emancipação é só mais uma prisão.

  • 1

    Quando professores refletem sobre as intenções dos alunos na escola, imaginam que eles têm um mira o conhecimento.

    A escola, porém, faz parte de um sistema certificador que oferece um passaporte para melhores salários, a uma profissão, a uma vida melhor. Quando ela faz isso, ela desloca para o lado o conhecimento e coloca em posição a certificação. Assim deslocado, o conhecimento se torna um pretexto, algo a ser evitado, algo a ser contornado e algo a ser ignorado.

    O professor tenta atrair o olhar do aluno para o velho alvo, tenta trazê-lo de volta à sua frente, tenta torná-lo atraente. Mas o professor não vê que esse esforço contradiz com a presença da certificação que o aluno agora tem na frente. Esse esforço ingênuo se chama ensino.

    Pouca gente percebe essa contradição fundamental. Pouca gente percebe que a escola tradicional, certificadora, afasta de nossa atenção justamente o que ela pretende vender. A escola é contra o ensino, e ninguém jamais vai conseguir mudar isso.

    (escrito em 08/04/26)