Escravidão na Grécia: por que os escravos nunca fugiam?
Lendo a Odisseia, no canto 24, leio os versos 208-210, na versão de Christina Werner, editora Ubu:
Aí era sua propriedade; abrigo corria por todo o entorno,
no qual costumavam comer, sentar-se e dormir
os escravos, obrigados, que faziam o que ele quisesse.
Homero descreve a visão que Odisseu teve da casa de seu pai, Laertes, quando desceu da sua para avisá-lo que havia voltado. Os escravos dessa passagem era os escravos de Laertes.
Por que os escravos gregos se sentiam obrigados a ficar? Muito numerosos, facilmente poderiam ter fugido ou se rebelado, matando seus senhores. Mas esse padrão de obediência era conseguido, obviamente, a custa de muita violência, medo da morte, castigos exemplares e impossibilidade de acesso a armas em número suficiente. Imagino que alguns tenham conseguido fugir, a um custo pessoal muito alto.
Um aspecto da dominação é a percepção de que o dominado faz parte de um conjunto dividido internamente. Não há consenso, não há vitalidade, não há fervor ou vontade de escapar. Essa divisão é facilmente percebida em qualquer grupo social, facilmente explorada e mantida. Dividir para conquistar.
Um outro aspecto da dominação era que o dominado precisava ser conformado com sua prisão. Nessa hora, entra a religião, que opera com as armas da esperança e do medo em um mundo inacessível em vida. A criação desse mundo duplicado, já denunciado desde a antiguidade e retomada por Marx, é a principal estratégia de dominação moral que senhores criam para submeter servos.
Religião para a mente e exército para o corpo: o que um não consegue violentar, o outro consegue.