1. Introdução

Criei o termo conlíngua (uma adaptação do termo inglês conlangconstructed language) para designar as diversas línguas construídas ou planejadas, denominadas em outros tempos de línguas artificiais, que vêm sendo criadas aqui e ali desde a antiguidade, com diversos fins em vista. Com esta página, pretendo compilar e comentar as que mais me atraem.

Velhas e novas gerações talvez se lembrem do esperanto como um exemplo de conlíngua usada para comunicação entre pessoas de línguas diferentes, uma auxilíngua ainda bastante vigorosa em milhares de comunidades físicas e virtuais mundo afora. Hoje em dia, porém, a maioria das conlínguas estão confinadas a aparições esporádicas em filmes de ficção e fantasia. São artelínguas como a klingon, do universo Star Trek, a quenya, língua dos elfos d’O Senhor dos Anéis, ou as mais recentes valiriano e dothraki, ambas utilizadas na série Game of Thrones. Em verdade, já existe um nicho profissional extremamente limitado, mas bastante ativo, de linguistas que oferecem seus serviços para criar línguas para novas produções cinematográficas e televisivas. Não é preciso pensar muito para saber que esta profissão, a de conlinguista, não é lá uma das que propiciam rendimentos suficientes para se levar uma vida confortável…

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1.1. Terminologia

As conlínguas estão aí há séculos, mas ainda há pouco de definitivo sobre elas. Apesar de a interlinguística ser um ramo da linguística bem estabelecido, muitos de seus praticantes se esquecem que a construção de línguas é também um fenômeno popular que se desenvolve à margem das considerações estritamente científicas dos interlinguistas profissionais. E existem criações interessantes fora do ramo profissional.

Uma delas é a invenção do termo conlang, do inglês constructed language, que já está oficializado pela prática e pela existência de uma sociedade de criadores de línguas, a Language Creation Society, cujo site pôs na ordem do dia o termo conlang.

Aceitando o termo inglês, criei o paralelo português conlíngua, que mais alguém já deve ter recriado em algum lugar. A crítica a esse termo é que o prefixo con-, em português, tem obviamente outro significado que não construído. Mesmo ciente desse problema, e ciente de que, em um nível morfossintático mais elevado, o processo de construção de palavras portuguesas não reconhece esse tipo de formação, adotei o termo assim mesmo, que me faz lembrar do termo inglês e que possibilita a criação de outros termos, segundo uma tradição que vem ganhando força na internet. Esses novos termos seriam:

  • artelíngua (artlang): língua artificial criado com propósitos ficcionais ou artísticos, como a klingon, a sindarin, a dothraki.

  • auxilíngua (auxlang): língua artificial criada com o propósito explícito de ser uma língua auxiliar, como o esperanto, a interlingua e a elefen.

  • engelíngua (engelang): língua natural modificada (“engenheirada”), em geral simplificada, para se tornar uma auxilíngia, como a latino sine flexione e a Basic English.

  • etnolíngua (ethnolang): língua natural, de um povo ou etnia, como o português e o inglês. Também é conhecida como natlíngua (natlang).

  • filolíngua (philolang): língua artificial filosófica, em geral a priori, como a Ars Signorum de Dalgarno, o Real Character de Wilkins e, em grande medida, a ithkuil.

  • logilíngua (loglang): língua artificial criada com base na lógica matemática ou em outras estruturas matemáticas, como a lojban, a voksigid e a ceqli.

Essa nomenclatura simplifica muito o trabalho de classificar, em uma primeira aproximação, o universo das conlínguas. Fiquemos com elas até novos debates e novas críticas, pois uma nomenclatura que se pretende usual em uma comunidade não pode ser obra de apenas alguns indivíduos.

1.2. Uma antiga classificação: línguas a priori e a posteriori

Na tentativa de domar a multidão de conlínguas que surgiam, os interlinguistas de outrora criaram a distinção entre conlíngua a priori e conlíngua a posteriori. Como muitas outras, esta é uma classificação que não tem fronteiras bem definidas, além de não ser devidamente utilizada. Mas o que significam esses termos?

Uma conlíngua a posteriori é baseada em línguas naturais. O termo a posteriori, em si, indica que a conlíngua em questão veio depois das línguas naturais em que se baseia. Uma língua a priori, por sua vez, é pensada sem línguas naturais em mente, uma criação que se dá muitas vezes por puro devaneio linguístico.

Uma vez que todas as conlínguas, se planejadas para serem faladas, sempre acabam se baseando em conceitos de etnolínguas, essa classificação não é muito precisa. E mesmo que por oposição: a klingon foi deliberadamente construída para se localizar o mais distante possível das línguas humanas. A ordem mais comuns das palavras em klingon, por exemplo, é objeto-verbo-sujeito (ordem OVS), o que rarissimamente encontramos em etnolínguas. A língua indígena tapirapé, do Brasil, é uma delas (mas ordem objeto-sujeito-verbo – OSV – é ainda mais rara).

Uma língua genuinamente a priori, a rigor, não existe. Mesmo as línguas a priori dos śeculos XVI e XVII, por mais esquemáticas que sejam, acabam importando ideias simples de etnolínguas, como a existência de substantivos e verbos como classes distintas de palavras. A não ser que consideremos algumas línguas de programação exóticas, como a Brainf*ck e a Piet, uma pitada conceitual a posteriori acaba se introduzindo nas línguas a priori.

Mesmo imperfeita, essa classificação é popular, e por isso não vamos dispensar seu uso quando precisarmos nos referir a línguas extremamente estranhas e bem distantes das práticas linguísticas naturais.

2. Bibliografia

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COUTURAT, L., e LEAU, L. Historie de la langue universelle. Hildesheim: Georg Olms Verlag, 2001.

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LAPENNA, Ivo (ed.). Esperanto em perspektivo. Londres: Universala Esperanto-Asocio, 1974.

PUšKAR, Krunoslav. Common criticism of Esperanto: facts and fallacies. In KOUTNY, I. (ed.) Język. Komunikacja. Informacja. N. 10/2015. pp. 85-116.

ROGERS, Stephen D. A dictionary of made-up languages. Avon: Adams Media, 2011.